Justiça social

Em meio à onda de manifestações espalhadas por todo o Brasil, compartilhamos com vocês um dos “Contos do Esconderijo”, de Anne Frank. A jovem que aos treze anos de idade precisou se esconder com a família na esperança de sobreviver ao nazismo de Hitler. A fuga durou dois anos. Anne morreu aos 15 anos em um campo de concentração. Deixou como legado ao mundo, um diário em que relatou suas angústias e esperanças durante esse período.

O texto abaixo foi retirado desse diário. Quem chegar até as últimas linhas desse registro vai se surpreender com as reflexões da adolescente vítima do preconceito. Vale a pena gastar uns minutinhos do dia com essas indagações sobre injustiças sociais.

Dar
(26 de março de 1944)

“Fico imaginando se certas pessoas sentadas em seus lares quentes e confortáveis fazem ideia do que é ser um mendigo? Será que algum dia essas “boas e estimadas criaturas” quiseram saber da vida das pessoas e das crianças pobres ao seu redor? Certo, todo mundo dá a um mendigo umas poucas moedas de vez em quando. Mas esse dinheiro geralmente é empurrado de maneira apressada para a mão dele e a porta se fecha com rapidez. E o que é pior, o doador generoso normalmente estremece por precisar tocas aquela mão tão suja. É verdade ou não é? Depois ficamos surpresos que os mendigos se tornem tão rudes. Será que qualquer um não ficaria, ao ser tratado mais como um animal do que como um ser humano?

É ruim, muito ruim mesmo, que num país que se vangloria de possuir boas leis sociais e um alto padrão cultural as pessoas se tratem umas às outras dessa maneira. Os ricos, na maioria, olham um mendigo como alguém para ser desprezado, sujo e desamparado, rude e incivilizado. Mas algum deles já se perguntou como esses pobres infelizes se tornaram assim? Apenas compare seus filhos com essas pobres crianças. Qual é realmente a diferença? Seus filhos estão limpos e arrumados, os outros estão sujos e desamparados. É só isso? Sim, essa é realmente a única diferença. Mas se o filho de um pobre mendigo recebesse roupas bonitas e aprendesse boas maneiras então não haveria diferença nenhuma.

Nós nascemos iguais, eles também eram indefesos e inocentes. Todos respiram o mesmo ar, um grande número acredita no mesmo Deus! E ainda assim a diferença pode ser tão incomensurável, porque muitas pessoas nunca perceberam onde ela está realmente. Porque se tivessem percebido, descobririam que na verdade não há diferença nenhuma. Todos nascem iguais, todos têm de morrer um dia, e nada fica de sua glória terrena. A riqueza, o poder, a fama duram apenas uns poucos anos. Por que as pessoas se apegam tão desesperadamente a essas coisas transitórias? Por que não podem, aqueles que têm mais do que necessitam, dar esse excedente para seus concidadãos? Por que alguns devem ter uma vida tão difícil durante os poucos anos que passam nesta terra? Mas acima de tudo, faça com que as dádivas sejam dadas gentilmente e não apenas atiradas em seus rostos; todos têm direito a uma palavra amiga!

Por que alguém deve ser mais gentil para com uma mulher rica do que com uma mulher pobre? Alguém estimou a diferença de caráter entre as duas? A verdadeira grandeza de uma pessoa não reside na riqueza ou no poder mas no caráter e na bondade. Todos são humanos, todos têm seus defeitos e imperfeições, mas todos nascem com uma grande parte que é boa. E se alguém começasse por encorajar o bem em lugar de ocultá-lo, ao dar aos pobres a sensação de que eles também são seres humanos, não se necessitaria nem mesmo possuir dinheiro ou posses para fazê-lo.

Tudo começa pelas pequenas coisas. Por exemplo, não ceda o lugar no bonde apenas para as mães ricas, não, lembre-se também daquelas que são pobres. Peça desculpas se pisar no pé de uma pessoa pobre como faria com alguém rico. As pessoas sempre seguem um bom exemplo; seja o primeiro a dá-lo e então não levará muito tempo para que outras pessoas o sigam. Mais e mais pessoas se tornarão amáveis e generosas até que finalmente os pobres não sejam mais desprezados.

Oh, se ao menos já estivéssemos nesse tempo futuro onde nosso país e depois a Europa e finalmente o mundo inteiro perceberia que as pessoas são na verdade bem-intencionadas umas em relação às outras, que todos são iguais e o resto é apenas transitório.

Como é delicioso pensar que ninguém precisa esperar um minuto, podemos começar agora, começar lentamente a transformar o mundo! Como é delicioso pensar que todos, grandes e pequenos, podem contribuir para introduzir justiça imediatamente!

Assim como tantas coisas, a maioria das pessoas busca justiça com um objetivo bem diferente, resmunga porque recebe tão pouco dela. Abram os olhos, primeiro se certifiquem de que vocês mesmos são sempre justos! Deem de si mesmos, deem o quanto puderem! E vocês sempre podem dar alguma coisa, mesmo se for apenas bondade! Se todos fizessem isso e não fossem mesquinhos quanto a uma palavra gentil, então haveria muito mais justiça e amor no mundo. Deem e receberão muito mais do que pensaram ser possível algum dia. Deem, deem outra vez e mais outra, não percam a coragem, fiquem firmes e continuem dando! Jamais alguém ficou pobre por dar! Se fizerem isso, então em poucas gerações ninguém precisará mais ter pena das crianças pobres, porque elas não mais existirão!

Existe bastante espaço para todos no mundo, dinheiro suficiente, riquezas e beleza para todos dividirem! Deus fez o bastante para todos! Comecemos então por dividir igualmente”. Anne Frank

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